23 de mai. de 2013

Opinião: os fabricantes se preocupam com segurança ou apenas cumprem a lei? Por: Julio Cesar


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Segurança veicular nunca foi prioridade dos brasileiros. Para a grande maioria, o que importa é se o valor da parcela do financiamento do carro novo caberá no bolso, pois, em muitos casos, ter um veículo zero-quilômetro é a realização de um sonho. Para atender a este perfil de consumidor e, apoiadas por uma legislação nada firme, as montadoras simplesmente oferecem o que o povo quer comprar.

O lado positivo é que, aos poucos, os consumidores locais estão despertando cada vez mais para a questão de segurança. Nos últimos dias, causou repercussão a notícia da agência norte-americana Associated Press de que os carros brasileiros são “mortais”. Em seguida, veio a resposta da Anfavea, afirmando que os carros são seguros e as montadoras nacionais cumprem totalmente a legislação vigente. Então, fica a questão: os carros vendidos por aqui são inseguros por que a legislação sobre o tema ainda é branda ou por que as montadoras, embora cumpram as normas, não estão realmente preocupadas com essa questão?
Fiat Uno NCAP
Além de afirmar que as fabricantes aqui instaladas estão de acordo com a Lei, a Anfavea também defende que as normas e sistemas produtivos existentes no Brasil são os mesmos adotados pelos países mais desenvolvidos. Na mesma linha, como a maioria das plataformas são mundiais, as especificações são idênticas e os cuidados com a produção são os mesmos.
Nesse sentido, vejamos: aqui no Brasil, por exemplo, airbag duplo e freios ABS serão obrigatórios para todos os automóveis novos a partir de janeiro 2014. Mesmo assim, há uma incoerência: projetos recém-lançados, de marcas importantes, ainda são oferecidos em sua versão de entrada sem os freios ABS a poucos meses do início da obrigatoriedade. E não estamos falando de carros que já estavam em linha nos anos anteriores, mas sim de produtos realmente novos.
Hyundai HB20 Latin NCAP
Na Europa e nos Estados Unidos, a exigência deste dois itens é lei há muitos anos. Vale destacar ainda que a grande maioria dos automóveis vendidos por lá possuem, geralmente, quatro airbags e outros recursos, como o controle de estabilidade – item que será obrigatório na Europa a partir de outubro de 2014.
Se nos prendermos apenas a esse fator, dá para dizer, mesmo sem uma análise mais detalhada, que os nossos carros são mais inseguros do que os europeus, norte-americanos e japoneses. Mas, voltando à questão do papel das montadoras em relação a legislação, podemos ir um pouco além. Eis a razão.
No dia 16 de maio, o instituto independente norte-americano IIHS divulgou os resultados do crash test de vários utilitários esportivos vendidos nos Estados Unidos. O IIHS usou um novo critério adotado desde o ano passado: o impacto diagonal.
Por que o teste de impacto diagonal? De acordo com estudos do instituto, em grande parcela dos acidentes, o motorista tenta evitar a colisão desviando para o lado (geralmente o direito), fazendo com que o impacto não seja no meio e sim na quina do veículo – o que foge um pouco ao planejamento de segurança da estrutura do carro, uma vez que eles são testados em impactos frontal, parcial frontal ou lateral. Nesta nova situação analisada, o impacto ocorre em 1/4 do veículo (basicamente na região do farol), o que faz o carro tender a desviar para os lados de forma mais intensa. Confira o resultado no vídeo abaixo:

SUV’s norte-americanos vão mal no testes
Entre os dezessete utilitários esportivos testados nos EUA, apenas o Subaru Forester conseguiu conceito “bom” nesse tipo de impacto. O Mitsubishi Outlander (ASX) também foi bem e conseguiu conceito “aceitável”. Os outros quinze modelos foram todos reprovados.
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Isso que mostra que nos EUA, assim como no Brasil, os fabricantes estão mais focados em atender a legislação do que realmente construir carros mais seguros – a única diferença é que por lá a norma é bem mais rígida do que a nossa, o que coloca os consumidores norte-americanos em vantagem em relação aos brasileiros. Não é possível aceitar um veículo que seja seguro somente em algumas situações, mas sim em todas. Acidentes acontecem, e não temos como optar se queremos um impacto lateral, frontal ou de quina. Precisamos que um carro ofereça o máximo de segurança possível seja qual for a situação de emergência.
E o que fazer para termos carros mais seguros? O primeiro passo é a necessidade de que as autoridades e órgãos fiscalizadores sejam mais rigorosos e criem normas de segurança mais efetivas para os veículos.
Outro fator importante é a cultura do consumidor para exigir segurança. Durante um lançamento, o presidente de uma montadora foi questionado o porquê de um carro novo que custa mais de R$ 50 mil ter uma versão sem freios ABS. Sabem qual foi a resposta? “O consumidor não pede”. Outro executivo, ligado à marcas italianas e norte-americanas matou a charada ao dizer: “O brasileiro não está preocupado com segurança. Se na hora de comprar tiver um carro com calota e freios ABS e outro com rodas e sistema de som pelo mesmo preço, ele opta pelo segundo para mostrar para o vizinho que seu carro é ‘completo’”.
Os fabricantes estão errados? Olhando friamente como um negócio, não, eles não estão. Para que oferecer algo que não pedem? É por isso que precisamos exigir tais itens e rechaçar versões que não os possuam.
como-funcionam-os-freios-abs
E as montadoras? Precisam seguir à risca o que for determinado. Tratar os consumidores como pessoas da mesma forma em todo o mundo. Por que os europeus merecem ter mais segurança que os brasileiros? A vida tem um peso maior lá? Por que os norte-americanos? Não é só o carro que deve ser global, mas o tratamento ao ser humano também.

Confira a tabela com os resultados dos SUV’s testados pelo IIHS

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Disponível no(a):http://carplace.virgula.uol.com.br/

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