10 de mar. de 2013

DESCOBRIMOS COMO VIVE UM MALUCO POR 911

Um portão de ferro de seis metros começa a correr. São 15h e estou no setor de galpões no centro de Los Angeles, Califórnia. A luz invade a garagem e começa a revelar as razões da minha visita. Uma coleção de Porsche 911 tão peculiar quanto o dono, que vem andando em minha direção. Entender a vida dele explica a razão de seus carros serem tão especiais.

  •  inglês Magnus Walker tem 45 anos, não corta o cabelo desde os 15 e não faz a barba faz uma década. Seu estilo de restaurar 911 reflete sua personalidade intuitiva e sem compromisso com regras. Sua casa é um galpão de 2 mil m2 onde tudo que ele precisa está junto. No andar de cima mora com a esposa. No térreo, há a parte de costura e personalização de roupas, além da garagem.

Magnus Walker
Coincidências em cadeia levaram um jovem mochileiro de 19 anos ao autodidata de 45 anos que hoje criou uma grife de roupas e gerencia locações para estúdios de cinema em L.A. Walker não fez faculdade nem curso técnico. “Minha sabedoria vem das ruas. Como não se tem limites por lá, nunca coloquei limites para mim”, lembra.
A febre que o cabeludo tem pelos 911 também não tem limites. O primeiro Porsche veio em 1992. Era um Carrera 3.0 1977. Walker diz que dirigir o Porsche antigo era tudo o que ele havia fantasiado. “O carro era preciso nas manobras, parecia que estava vivo”, descreve. Sua coleção de carros foi crescendo e contou com nomes de peso. Lotus Europa (1973), Dodge Superbee (1969), Ferrari 308 GTB (1979) e Ford Mustang GT500 (1967) rivalizavam com o Porsche. “Chegou uma hora em que percebi que só queria o cupê alemão. Vendi todos e me concentrei no 911 a partir do ano 2000.”
Porsche 911 1964

0 911 mais raro de todos

A meta pessoal de Walker era ter um 911 para cada ano entre 1964 e 1973. A tenacidade levou o aficionado a conseguir isso, até o raríssimo modelo de 1964. “Apenas 232 unidades foram feitas naquele ano, só 59 continuam emplacadas e cerca de 30 têm o motor original. O meu Porsche 1964 é um desses raros.”
Das mais de 40 unidades do 911 que passaram pela garagem de Walker, este de 1964 será o único construído 100% original. Walker tem seu estilo próprio de restaurar os carros. Há dez anos participa de track days e corridas do Porsche Owner’s Club.
As assinaturas do inglês são as setas embutidas na carroceria, as maçanetas e boca de combustível perfuradas e o interior em couro preto (costurado pelo próprio Walker) com volantes  antigos da marca Momo. Porém, o mais marcante não se vê à primeira vista. Walker usa suspensão e freios feitos para as pistas, além de diferenciais com deslizamento limitado. “Com minha experiência com 911 antigos em autódromos, consigo fazer um ajuste fino e tirar um comportamento muito divertido”, diz. Os motores são reconstruídos pelo amigo Phil Slate, que os deixa 0 km.
Como um cara de cabelo rastafári se apaixona pelo 911? E de que maneira ele sai com uma mochila da Inglaterra e termina na Califórnia fazendo roupa para estrelas da música e alugando espaços para estúdios de cinema?
Magnus Walker

Menino maluquinho

Em 1977, Magnus e o pai foram a uma exposição de automóveis em Londres. O garoto de 10 anos ficou fascinado pelo 911 Turbo e escreveu uma carta à fábrica. “Eu disse que queria desenhar para a Porsche. A simpática resposta chegou alguns dias depois: ‘Ligue-nos quando for mais velho’.”
O garoto não gostava da escola, mas era persistente o suficiente para aos 12 anos treinar corrida duas vezes ao dia, de segunda a sábado. “Eu gostava do desafio, de me levar ao limite e quebrar marcas pessoais na pista de atletismo.” Walker completou 18 anos e não telefonou para a Porsche. Sua visão de vida na época era de sexo, drogas e rock’n’roll. O cabeludo morava em Sheffield, cidade de 500 mil habitantes, 270 km ao norte de Londres. Para levantar uma grana e viajar, ele foi trabalhar em Los Angeles, nos EUA, como monitor de uma colônia de férias para jovens. Walker frequentava as festas e dormia nos sofás dos amigos. Quando a grana apertou, foi vender roupas da marca GAP em Venice Beach. Foi aí que tudo começou a mudar.
Magnus Walker

Estilista por acaso

Magnus viu em frente à loja um jovem vendendo roupa usada, um minibrechó. A ideia de Walker então foi fazer o mesmo, mas personalizar as roupas. O negócio foi crescendo e, sem perceber, as roupas de Walker foram parar nos armários de ícones da música como AC/DC, Led Zeppelin, Smashing Pumpkins, Madonna, Alice Cooper, Motörhead, Iggy Pop, Van Halen e outros. “Nunca tive um designer, sempre criei coisas que eu gostava de usar”, conta.
Outra sacada de Magnus foi aproveitar a indústria do cinema. Em 2000, um produtor de um estúdio pediu para gravar um videoclipe em seu galpão. Nos anos seguintes Magnus passou a comprar propriedades em todo o centro de Los Angeles (até o terreno sob uma ponte está hoje no catálogo). Seriados famosos como CSI, Monk e o reality show America’s Next Top Model também usaram as locações de Walker. Os aluguéis rendem tanto que financiam a paixão de Walker: a atual coleção de quase duas dezenas de 911.
Saí do Brasil e cheguei a Los Angeles pensando que encontraria um maluco, e realmente o encontrei. Porém, a maluquice dele é ser obstinado por tudo o que faz. Assim, ele constrói os 911 mais nervosos que já vi. Só com a vontade de fazer tudo do jeito dele e pronto. “Acredito que, se eu for hoje à Porsche e mostrar a carta que escrevi há 35 anos, eles irão sorrir e ficar felizes com o que eu tenho feito com os meus 911”, sonha (como sempre) Walker.

Disponível no(a):http://caranddriverbrasil.uol.com.br

Nenhum comentário: