31 de jan. de 2013

Entrevista: CEO da AMG fala sobre o trabalho de criar superesportivos repletos de luxo

Fotos: Divulgação
Entrevista: CEO da AMG fala sobre o trabalho de criar superesportivos repletos de luxo
Sueco, Ola Källenius, é o responsável pela divisão esportiva da Mercedes-Benz

por Rodrigo Machado
Auto Press

Os engenheiros da AMG têm uma tarefa árdua: pegar os carros fabricados pela Mercedes-Benz e transformá-los em máquinas extrememante rápidas, mas que consigam manter a aura de requinte tradicional aos veículos da marca alemã.
Ao menos, é um serviço dos mais compensadores. A preparadora oficial da Mercedes é responsável por fazer alguns dos carros dinamicamente mais interessantes da atualidade. E um dos “culpados” pela boa fase da AMG é o sueco Ola Källenius. Há três anos na chefia da Mercedes-AMG, o executivo tem farta experiência no assunto. Passou quatro anos e meio como diretor da divisão da Mercedes que fornecia motores para a equipe McLaren na Formula 1. Grande fã da categoria, Ola teve no Brasil a corrida mais emocionante de sua carreira. “Foi em 2008, quando Felipe Massa venceu a corrida e estava sendo campeão pela Ferrari. A arquibancada fez quase um carnaval. Vinte segundos depois, Lewis Hamilton, na época ainda na McLaren, fez uma ultrapassagem na penúltima curva e conseguiu o ponto extra que garantiu o título para nós”, lembra Ola. “Aí foi a nossa vez de comemoramos feito uns loucos”, recorda.
 


Mesmo que os dias de F1 tenham sido marcantes, o trabalho atual do sueco também o encanta. “Quando a diretoria da AMG abriu, em 2010, eu voltei correndo à Alemanha”, brinca. “Hoje estou há três anos no cargo. E realmente não tenho do que reclamar”, admite. Durante o Salão de Detroit, no meio de janeiro, o executivo falou sobre o atual momento da AMG, os projetos futuros e a missão de criar alguns dos carros mais desejados do mundo automotivo.
 
P – Como você pega um sedã grande e luxuoso como um Classe E ou um Classe S, que são veículos confortáveis e silenciosos, e transforma em um esportivo com quase 600 cv?

R: Mudando quase tudo. Claramente, o coração de qualquer AMG sempre foi o motor. Então, é claro, precisamos de um que nos dê performance, força, agilidade e sonoridade. Isso combinado com a transmissão exclusiva e terminando com um chassi que passa por uma completa reengenharia. A parte dianteira dos carros é absolutamente outra. Se você comparar as medidas fica óbvio, mas mesmo se olhar dá para perceber as bitolas mais largas e o tamanho dos pneus. Tudo é diferente. A maneira como que calibramos os softwares de assistência à direção – controles de tração e estabilidade, por exemplo – também é única para os carros da AMG. Mas essa é parte fácil do trabalho de transformar o carro em uma máquina feroz. A parte complicada é fazer tudo isso de uma maneira que seja um carro que você pode dirigir todos os dias e que seja algo que você desfrute no caminho diário de casa ao trabalho. Então, nós temos o melhor dos dois mundos: um “cavalo de corrida de sangue puro” e, ao mesmo tempo, um carro que seja agradável em situações diárias.

P – É mais fácil fazer uma versão AMG da SL, um roadster já com características esportivas, ou uma Classe S, um sedã de muito luxo embarcado?

R: O cliente que compra uma S63 AMG ou até uma S65 AMG não é o que tradicionalmente pega o carro e o leva para uma pista de corrida. Então, em um carro como esse, precisamos focar mais no desempenho nas estradas tradicionais e também no conforto ao rodar. Se você pegar uma C63 cupê, praticamente o outro lado do espectro, esse sim precisa ser um carro que tem ótimo comportamento em pistas. Nesse caso, somos mais agressivos nas mudanças do chassi e principalmente na maneira com que o veículos encara curvas comparado com um S63 AMG. É preciso conhecer os clientes e é por isso que cada carro é um desafio diferente. Mas todos muito complicados.

P – Qual é o seu AMG favorito?

R: Algumas vezes me perguntam isso. E a situação é mais ou menos a seguinte: eu tenho três filhos. É uma pergunta semelhante a “qual criança você gosta mais?”. Você só pode responder a essa pergunta com muita explicação para dar depois. Mas como temos um portfólio muito grande dentro da AMG, conseguimos atingir muitos nichos e muitas utilizações. Se eu for esquiar nas férias provavelmente vou usar a ML63. Se eu quiser me divertir no final de semana talvez eu pegue uma SLS ou uma C63 cupê que são carros mais direcionados ao prazer de guiar. Então é uma questão de saber o que você está procurando. Existem segmentos diferentes dentro do setor de carros premium de alto desempenho.

P – Como foi a decisão de criar o novo Classe E AMG com tração integral, o primeiro carro de passeio da preparadora com esse tipo de tração?

R: Sempre fomos muito fortes entre os utilitários, então a combinação da tração integral com a alta performance é praticamente invenção nossa – a ML55 AMG original foi o primeiro SUV esportivo do mercado. E há dois anos atrás, depois de diversos pedidos de clientes, percebemos que existe um nicho que devemos explorar. Mas se formos fazer, precisamos fazer certo. Então, criamos uma versão extrema do sistema 4Matic já usado em outros carros da marca. Isso tudo para criar um verdadeiro carro esportivo que mantenha as características de dirigibilidade da AMG nele. O DNA da marca não poderia se perder. Por isso escolhemos o jogar mais força no eixo traseiro do Classe E, com distribuição de 67% para a traseira e 33% para a dianteira. E temos ainda mais um benefício óbvio, embora não tão importante para o Brasil. Em regiões com neve, como Europa e América do Norte, a tração integral melhora a utilização do carro no ano todo. Temos muitos clientes que compram um E500 4Matic, mas querem de verdade um E63 AMG. Agora eles também podem entrar no segmento de carros de performance com o novo E63 AMG.
 

P – Qual foi a participação da AMG no desenvolvimento do novo CLA?

R: Estamos entrando neste segmento pela primeira vez. Desde que a nova família de carros nesta plataforma foi definida, ficou absolutamente claro que ela tinha um gene esportivo. E nossos engenheiros ficaram muito animados com a ideia. Para falar de uma área específica onde nós participamos, posso mencionar o novo sistema de tração integral que estreia no CLA. Até porque o desempenho que nós estávamos buscando com nossas variações AMG não seria possível de alcançar apenas com tração dianteira. Então tração integral era essencial e foi uma das áreas que nós entramos. Mas esse é apenas um exemplo concreto de como participamos da produção do carro desde o início.

P – Teremos alguma versão AMG do CLA?

R: O que nós já dissemos é que da nova família de carros médios que a Mercedes está produzindo, vamos fazer três versões AMG. Então, o A45 AMG é o primeiro e eu diria que não é preciso ser um cientista espacial para descobrir qual será o segundo. Em relação ao terceiro modelo, preferimos não comentar nada neste estágio.

P – A AMG tem algum tipo de interação com o time de Formula 1 da Mercedes? Há trocas de informações e experiências?

R:  Um bom exemplo é na SLS AMG Electric Drive, variante elétrica do superesportivo, onde as baterias de alta potência foram desenvolvidas e produzidas pela equipe de F1 da Mercedes. Nesse caso há uma transferência direta e física de uma tecnologia da F1 para um carro de rua, mesmo que de uma maneira bem extrema. Mas mesmo em termos de desenvolvimento de motores, os engenheiros trabalham de forma bem conjunta. Há um novo regulamento na F1 que entra em vigor em 2014 diminuindo o tamanho dos motores, introduzindo de volta os turbos e um uso maior de recuperação de energia cinética. E os engenheiros da AMG estão trabalhando juntos nisso tudo. Não se pega um pistão de um motor de F1 para utilizar em um carro, até porque os tamanhos são bem diferentes, mas a ideia geral e o objetivo final de aumentar o desempenho e melhorar a eficiência é o mesmo. Os desafios são os mesmos. E há um benefício direto neste trabalho em conjunto.
 

Fonte: motordream
Disponível no(a): motordream.uol.com.br
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