Contudo, Camilo e Boesel acreditam que Feldmann foi mal orientado ao não realizar o exame
Alceu Feldmann (Fernanda Freixosa/Vicar)
A divulgação do caso de doping envolvendo Alceu Feldmann
levantou a questão sobre o preparo e o conhecimento dos pilotos
brasileiros com relação às regras da Agência Mundial Antidoping (Wada,
na sigla em inglês).
O competidor da equipe Shell, de Andreas Mattheis, negou-se a realizar o procedimento obrigatório após a terceira etapa do calendário, realizada em 6 de maio, no Velopark.
Feldmann embasou sua decisão no fato de que não havia conseguido obter ainda, após "inúmeros requerimentos", a chamada Exceção de Uso Terapêutico (TUE, na sigla em inglês), autorização oficial da agência mundial para uso de qualquer substância proibida pela entidade com a fins médicos. No caso de Alceu, o tratamento é endocrinológico e requer o consumo de um hormônio.
Entretanto, o vencedor da etapa de Santa Cruz do Sul do ano passado possuía uma autorização verbal e por e-mail do presidente da Comissão Nacional de Medicina Desportiva da CBA, Dino Altmann, para consumir a medicação. Mesmo assim, Feldmann disse ter seguido "orientação dos advogados" para não realizar o exame, temendo não ter garantias de amparo legal caso o resultado acusasse positivo.
Ao se negar a fazê-lo, Feldmann violou o artigo 2.3 do regulamento da Wada, que trata da "recusa ou falta de justificação válida a uma recolha de amostra após notificação, em conformidade com as regras antidopagem vigentes, ou ainda qualquer comportamento que traduza uma fuga à recolha de amostra".
Por isso, o piloto foi suspenso preventivamente pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) por 30 dias até apresentar sua defesa e ser julgado, podendo sofrer uma suspensão de dois anos.

O Tazio Autosport ouviu a opinião de dois pilotos da Stock Car
para descobrir como os competidores da categoria são orientados acerca
do exame antidoping e saber o que pensam a respeito do caso.
Segundo Thiago Camilo, piloto da RCM, todos eles recebem um manual da Wada no início da temporada, mas não há nenhuma palestra ou instrução verbal por parte da CBA. Contudo, de acordo com ele, qualquer dúvida sobre uso de algum medicamento pode ser tirada diretamente com o médico oficial da CBA, Dino Altmann.
"O Dr. Dino mantém canal aberto conosco para qualquer esclarecimento. Se você pega uma gripe, por exemplo, pode entrar em contato com ele para saber se pode tomar tal tipo de remédio ou não", explicou.
Camilo informou nunca ter sido instruído quanto à possibilidade de obtenção da TUE para casos de tratamento premanente, mas ponderou nunca ter precisado recorrer à autorização.
"Como eu nunca necessitei nenhum tratamento, nunca fui atrás. Mas, pelo que eu sei, eles [CBA] explicam como proceder em casos como o do Alceu", afirmou Thiago.
O competidor da equipe JF e colunista do Tazio Autosport, Pedro Boesel, disse que teve acesso ao regulamento da Wada somente pelo site da CBA e também pontuou nunca ter participado de qualquer instrução verbal sobre o tema.
Porém, em sua visão, os atletas têm "obrigação" de procurar as informações corretas a respeito. "Tenho certeza que muita gente nunca acessou esse material. Não sei se é o caso do Alceu, mas o que ficou claro é que ele não conhecia a regra quando se negou a fazer o exame", comentou.
"Mas o que mais me chama a atenção é ele ter sido orientado pelos advogados. Como alguém orienta seu cliente a fazer algo que só vai piorar a situação? Isso mostra o desconhecimento também deles", seguiu.
Camilo concordou: "Eu prefiro acreditar na inocência do Alceu, mas, ao se negar a fazer o antidoping, ele abriu precedentes. Ele tinha autorização do Dr. Dino por e-mail, como o próprio falou, então ele tinha uma garantia caso o resultado desse positivo para aquele medicamento. Ao não fazer, ele abriu precedentes para que se suspeite do uso de outras substâncias", enfatizou.
Como funciona o antidoping na Stock

O exame antidoping foi adotado a partir da temporada 2008 na Stock
Car, depois de denúncias do piloto da extinta Stock Light, Renato Russo,
de que alguns participantes de corridas da categoria se dopavam ou até
mesmo consumiam drogas e álcool antes das provas. Além de Feldmann,
Paulo Salustiano e Tarso Marques já acusaram positivo no procedimento.
Alegando problemas com os custos, a Confederação Brasileira de Automobilismo não realiza o exame ao final de todas as provas. Quando o faz, ela adota o critério de chamar o vencedor da etapa mais cinco outros participantes, escolhidos por sorteio.
Ao ser convocado, o competidor é abordado por dois fiscais no final da corrida, sendo orientado a realizar o exame em até meia hora. Ele é encaminhado pelos oficiais até o local onde é feita a coleta de urina e tem de recolher a amostra na presença dos fiscais.
Para Thiago Camilo, os competidores que sobem ao pódio têm mais chances de passar pelo procedimento. "A impressão que dá é que eles sempre incluem no sorteio alguém que foi ao pódio [além do vencedor]. Já caí para fazer o exame algumas vezes junto com o Cacá [Bueno], por exemplo, enquanto outros raramente são chamados", relatou.
O representante da RCM também criticou o fator "surpresa" na operação. "Sou a favor do exame, mas acho que ele deve ser feito de uma forma mais programada e periódica. O objetivo não tem que ser provocar um resultado positivo, ao meu ver, mas sim criar nos pilotos o hábito de se cuidar constantemente", defendeu.
Boesel, por sua vez, apoiou o caráter randômico do exame. "Eu acho justo. Programar o exame poderia ajudar quem está se dopando a se cuidar para não ser pego", considerou.
A suspensão preventiva
Um dos fatos que mais chamaram a atenção no caso Feldmann foi a aplicação de uma suspensão temporária por 30 dias, exatamente em um período em que não há nenhuma corrida da Stock Car em disputa.
Ao Tazio Autosport, a CBA informou na quinta-feira que se tratou de uma mera "coincidência" e que aplicou a punição assim que recebeu a notificação oficial do problema. Por enquanto, Feldmann não perderá nenhuma prova da categoria, mas ficará de fora da segunda etapa do Brasileiro de Marcas, em Brasília, no dia 10 de junho. O catarinense disputa o campeonato pela equipe Full Time.

De acordo com o artigo 10.4.1 do regulamento da Wada, a sanção ao
atleta que se recusa a realizar o antidoping é de dois anos, ou até
mesmo vitalícia, em casos mais graves. Contudo, a própria agência
descreve em seu documento oficial que a punição definitiva depende de
julgamento e da apresentação de defesa por parte do esportista, podendo
ser modificada.
"O praticante desportivo ou outra pessoa terão o direito, em qualquer dos casos, antes de ser aplicada qualquer suspensão da prática desportiva, a apresentar seus argumentos de forma a tentar eliminar ou reduzir a sanção a aplicar", está determinado em um dos parágrafos.
"A tendência nos casos de dopagem tem ido no sentido de reconhecer que deve existir a oportunidade, no decurso do processo, de audição para se ter em conta os fatos e circunstâncias específicas de cada caso, antes da imposição de quaisquer sanções", acrescenta outro.
O competidor da equipe Shell, de Andreas Mattheis, negou-se a realizar o procedimento obrigatório após a terceira etapa do calendário, realizada em 6 de maio, no Velopark.
Feldmann embasou sua decisão no fato de que não havia conseguido obter ainda, após "inúmeros requerimentos", a chamada Exceção de Uso Terapêutico (TUE, na sigla em inglês), autorização oficial da agência mundial para uso de qualquer substância proibida pela entidade com a fins médicos. No caso de Alceu, o tratamento é endocrinológico e requer o consumo de um hormônio.
Entretanto, o vencedor da etapa de Santa Cruz do Sul do ano passado possuía uma autorização verbal e por e-mail do presidente da Comissão Nacional de Medicina Desportiva da CBA, Dino Altmann, para consumir a medicação. Mesmo assim, Feldmann disse ter seguido "orientação dos advogados" para não realizar o exame, temendo não ter garantias de amparo legal caso o resultado acusasse positivo.
Ao se negar a fazê-lo, Feldmann violou o artigo 2.3 do regulamento da Wada, que trata da "recusa ou falta de justificação válida a uma recolha de amostra após notificação, em conformidade com as regras antidopagem vigentes, ou ainda qualquer comportamento que traduza uma fuga à recolha de amostra".
Por isso, o piloto foi suspenso preventivamente pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) por 30 dias até apresentar sua defesa e ser julgado, podendo sofrer uma suspensão de dois anos.

Segundo Thiago Camilo, piloto da RCM, todos eles recebem um manual da Wada no início da temporada, mas não há nenhuma palestra ou instrução verbal por parte da CBA. Contudo, de acordo com ele, qualquer dúvida sobre uso de algum medicamento pode ser tirada diretamente com o médico oficial da CBA, Dino Altmann.
"O Dr. Dino mantém canal aberto conosco para qualquer esclarecimento. Se você pega uma gripe, por exemplo, pode entrar em contato com ele para saber se pode tomar tal tipo de remédio ou não", explicou.
Camilo informou nunca ter sido instruído quanto à possibilidade de obtenção da TUE para casos de tratamento premanente, mas ponderou nunca ter precisado recorrer à autorização.
"Como eu nunca necessitei nenhum tratamento, nunca fui atrás. Mas, pelo que eu sei, eles [CBA] explicam como proceder em casos como o do Alceu", afirmou Thiago.
O competidor da equipe JF e colunista do Tazio Autosport, Pedro Boesel, disse que teve acesso ao regulamento da Wada somente pelo site da CBA e também pontuou nunca ter participado de qualquer instrução verbal sobre o tema.
Porém, em sua visão, os atletas têm "obrigação" de procurar as informações corretas a respeito. "Tenho certeza que muita gente nunca acessou esse material. Não sei se é o caso do Alceu, mas o que ficou claro é que ele não conhecia a regra quando se negou a fazer o exame", comentou.
"Mas o que mais me chama a atenção é ele ter sido orientado pelos advogados. Como alguém orienta seu cliente a fazer algo que só vai piorar a situação? Isso mostra o desconhecimento também deles", seguiu.
Camilo concordou: "Eu prefiro acreditar na inocência do Alceu, mas, ao se negar a fazer o antidoping, ele abriu precedentes. Ele tinha autorização do Dr. Dino por e-mail, como o próprio falou, então ele tinha uma garantia caso o resultado desse positivo para aquele medicamento. Ao não fazer, ele abriu precedentes para que se suspeite do uso de outras substâncias", enfatizou.
Como funciona o antidoping na Stock

Alegando problemas com os custos, a Confederação Brasileira de Automobilismo não realiza o exame ao final de todas as provas. Quando o faz, ela adota o critério de chamar o vencedor da etapa mais cinco outros participantes, escolhidos por sorteio.
Ao ser convocado, o competidor é abordado por dois fiscais no final da corrida, sendo orientado a realizar o exame em até meia hora. Ele é encaminhado pelos oficiais até o local onde é feita a coleta de urina e tem de recolher a amostra na presença dos fiscais.
Para Thiago Camilo, os competidores que sobem ao pódio têm mais chances de passar pelo procedimento. "A impressão que dá é que eles sempre incluem no sorteio alguém que foi ao pódio [além do vencedor]. Já caí para fazer o exame algumas vezes junto com o Cacá [Bueno], por exemplo, enquanto outros raramente são chamados", relatou.
O representante da RCM também criticou o fator "surpresa" na operação. "Sou a favor do exame, mas acho que ele deve ser feito de uma forma mais programada e periódica. O objetivo não tem que ser provocar um resultado positivo, ao meu ver, mas sim criar nos pilotos o hábito de se cuidar constantemente", defendeu.
Boesel, por sua vez, apoiou o caráter randômico do exame. "Eu acho justo. Programar o exame poderia ajudar quem está se dopando a se cuidar para não ser pego", considerou.
A suspensão preventiva
Um dos fatos que mais chamaram a atenção no caso Feldmann foi a aplicação de uma suspensão temporária por 30 dias, exatamente em um período em que não há nenhuma corrida da Stock Car em disputa.
Ao Tazio Autosport, a CBA informou na quinta-feira que se tratou de uma mera "coincidência" e que aplicou a punição assim que recebeu a notificação oficial do problema. Por enquanto, Feldmann não perderá nenhuma prova da categoria, mas ficará de fora da segunda etapa do Brasileiro de Marcas, em Brasília, no dia 10 de junho. O catarinense disputa o campeonato pela equipe Full Time.

"O praticante desportivo ou outra pessoa terão o direito, em qualquer dos casos, antes de ser aplicada qualquer suspensão da prática desportiva, a apresentar seus argumentos de forma a tentar eliminar ou reduzir a sanção a aplicar", está determinado em um dos parágrafos.
"A tendência nos casos de dopagem tem ido no sentido de reconhecer que deve existir a oportunidade, no decurso do processo, de audição para se ter em conta os fatos e circunstâncias específicas de cada caso, antes da imposição de quaisquer sanções", acrescenta outro.
Fonte: tazio
Disponível no(a): http://tazio.uol.com.br
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