Às vezes, meu trabalho é tão estressante
que eu quero sentar-me num canto e chorar. Às vezes, não consigo achar
espaço no meu jardim para todos os carros que preciso testar na semana.
Então, descubro que tenho que ficar em casa numa Sexta-Feira porque
alguém deixará o novo Pagani. Deixe-me dar-lhe o exemplo mais recente:
nós decidimos filmar uma seleção de carros caros nos desertos do oeste
da América. Isto significaria seis dias ensolarados, acelerando por aí
no carro de outra pessoa e me exibindo.
Hammond escolheu o novo Dodge Viper. May
escolheu o novo Aston Martin Vanquish. E eu ficaria com a Ferrari F12.
Mas não teríamos a Ferrari em tempo para as filmagens, então eu tive que
pensar em outro. O SLS Black? O Audi R8 GT? Este é o tipo de pesadelo
que tenho que enfrentar diariamente.
Eu ainda estava pensando numa solução
quando abri a porta superleve do que parecia ser um Toyota Celica. Mas
não era um Celica. Era um Lexus LFA de R$1.2 milhão. E, uma hora depois,
eu sabia exatamente o que iria dirigir na América. Ele era sensacional.
Este carro levou 5 anos para ser
desenvolvido. E então, quando a produção estava prestes a começar, os
engenheiros decidiram que seria melhor se a carroceria fosse feita de
fibra de carbono, ao invés de alumínio. Qualquer outro conselhor diretor
teria mandado-os se ferrarem. Mas os chefões da Toyota disseram:
“certo, eis outra banheira cheia de yens”.
Então eles voltaram à mesa de projetos e
começaram de novo. E, após mais 4 anos de testes constantes em
Nurburgring e ajustes, eles criaram algo realmente espetacular.
Diferente de um Lexus normal que isola os
ocupantes de qualquer sensação, o LFA parece como o que ele é: uma
máquina. Ele tem um câmbio com uma única embreagem, porque dessa maneira
você nota as trocas de marcha. Ele tamborila e uiva. Às vezes, você tem
a impressão que está sentado dentro de um dos 10 cilindros. Há muito
tempo que eu não dirigia algo tão refinado, tão magnífico, tão
detalhado, tão perfeito. Após ter dirigido um LFA, todo o resto parece
tão mole quanto um dos casacos do Arsène Wenger.
Mas eu tenho um problema porque, quando
chegarmos nos EUA, Chuck Hammond e James Bond dirão que eu escolhi o
carro errado, e não duvido que eles me forçarão a jogar Super Trunfo. O
Lexus perderá feio. Ele não é tão rápido quanto os carros deles. Ele não
acelera com a mesma ferocidade. Não é tão potente quanto eles. E os
estratosféricos R$1.2 milhão torna-o de longe o mais caro. Eles
insistirão nessa história, porque eles são umas crianças.
Em seguida, eles perguntarão com caras
sérias por que ele tem um motor V10, sabendo muito bem que quando o LFA
foi concebido, a Toyota estava na Fórmula 1 e, na época, os bólidos
usavam motores 10-cilindros. Portanto, ele foi projetado para exibir uma
tecnologia que agora está bem ultrapassada.
Tem mais também. Eu argumentei várias
vezes no passado que um carro deve mostrar de onde veio. Um Aston tem
que parecer britânico. Uma Ferrari tem que parecer italiana. Um Viper
tem que parecer gordo. O LFA tem que parecer um produto de um
laboratório de ciências. Isto é algo que acomete todos os carros
japoneses.
Talvez porque, desde o começo, as
montadoras japonesas pensavam principalmente nos mercados estrangeiros.
Enquanto a Austin fazia carros especificamente para a Grã-Bretanha e a
Citroen especificamente para a França, Toyota e Datsun faziam carros
especificamente para todos os países. Talvez seja por isso que os carros
japoneses quase sempre parecem anódinos e sem sal.
Dirija um carro japonês, e você sentirá
absolutamente nenhuma conexão. É algo que você nem respeita, nem gosta. É
uma ferramenta, como uma pá ou um freezer. Não tem personalidade, e
personalidade é a diferença entre um carro bom e um carro ótimo. Para
mim, personalidade é tudo.
James e Richard mencionarão isto também,
enquanto apontam para o LFA. Então dirão que sou uma fraude e que
escolhi o LFA apenas porque eles já haviam escolhido os melhores carros.
Terei que ter uma resposta pronta, e acho
que tenho uma. Porque, bem de vez em quando, o Japão faz um carro que é
bom precisamente porque ele não tem uma alma. A Honda faz isso mais
vezes que qualquer outra montadora, notavelmente com o CRX e o NSX. A
Nissan fez isso com o GT-R, a Mitsubishi com o Evo, e agora a Lexus fez
isso, de certo modo, com o LFA.
Deixe-me falar sobre o painel. Quando
você muda os ajustes, o velocímetro, que parece ser real ao invés de
eletrônico, move-se para dar espaço para dois mostradores extras e mais
informação. Não dá para cansar-se disso.
Então têm os materiais usados para
revestir as portas, o painel e o túnel da transmissão. A maioria dos
designers automotivos têm um catálogo de duas páginas – uma com couros,
outra com fibra de carbono. Mas a Lexus teve aulas de decoração de
interiores com Kevin McCloud e encontrou pequenas companhias na Letônia e
no Mali que podem cortar e moldar coisas que ninguém nunca havia ouvido
falar. É um design e tanto.
Claro, assim como o programa Grand
Designs do Channel 4, ele não tem um histórico. Ele destaca-se na
paisagem como algo esquisito. É estranho. Mas ele atrai você. Ele o
intriga. Talvez após um tempo, você fique cansado dele. Mas acho que
demorará um pouco…
E tem o som. Em altas rotações, ele soa
como um milhão de fogos de artifícios, amplificados pela mesa de som do
AC/DC e disparado na cara de quem você acabou de ultrapassar. Ele
crepita. E então, quando você acha que não pode acelerar mais, o
crepitar vira um uivo malígno. É hora de puxar a borboleta do câmbio,
sentir a pancada e acomodar-se no banco requintado, pronto para começar
tudo de novo.
Então você vê uma saliência no asfalto. A
superfície da estrada está coberta por todo tipo de irregularidades que
ela acumulou ao longo dos anos. Você sente que é melhor frear porque o
LFA irá acusar o baque. Mas não precisa, porque a suspensão é tão boa
que ele nem encosta na saliência.
Em teoria, o Viper e o Aston detonam o
Lexus. Mas suspeito que no mundo real – bem, o quanto ele chega perto de
ser “real” em e nos arredores de Las Vegas – ele virará a mesa.
Suspensão dura? Sim. Mas não é ridícula. Ela é dura o suficiente para que você faça a curva seguinte a milhão.
Só consigo imaginar um carro que pode
comparar-se a ele. A Ferrari 599 GTO. Ou Kato, se você acompanha o
programa atentamente. Obviamente, ela tem muito mais personalidade que o
LFA e, como resultado, parece ser muito mais humana. Ela é falível e
confusa, e quando chove ela degringola-se toda. É difícil de domar, mas
ela é muito recompensadora quando você consegue.
O LFA não desmonstra nenhum desses
traços. Ele parece um Exterminador do Futuro. Você fala para ele o que
fazer, e ele continuará fazendo isto. Ele simplesmente não irá parar.
Dá para amar uma máquina? Claro que dá. John Connor conseguiu. E eu amo o LFA.
Fonte: topgearbr
Disponível no(a): http://topgearbr.wordpress.com/
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