6 de dez. de 2012

Acredite: a Índia está fabricando os carros mais interessantes do mundo

carros indianos
É um título polêmico, mas estou falando sério. Antes devo esclarecer: ‘interessante’ não quer dizer ‘melhor’. Não é o mais rápido, nem o mais avançado ou mais confortável ou nenhum outro superlativo (talvez seja ‘o mais barato’). Mas alguns dos carros atualmente produzidos na Índia, projetados por indianos, para indianos – são genuinamente interessantes e trazem soluções criativas para os problemas locais.

Com dinheiro suficiente qualquer um pode fazer um carro rápido e bonito e confortável. É óbvio, não? Os fabricantes fazem isso todos os dias. O que eu quero ver é alguém construir algo capaz de aguentar estradas ruins, beber pouco e levar famílias inteiras e carga pra caramba custando menos de dez paus. Esse sim é um veículo interessante.
Na verdade, a Índia está produzindo lendas automotivas do pós-guerra como o Mini, o Citroën 2CV, o Fusca e o Ford Modelo T.
Depois de ir ao Salão de Los Angeles na semana passada e ver muitos carros elegantes, rápidos, confortáveis e avançados, fiquei meio perturbado com o modo como não dou valor a certas coisas. Coisas como números imensos de potência, dezenas de LCD coloridos espalhados pelo interior do carro, materiais que foram escolhidos a dedo por uma equipe de especialistas para tentar deixar tudo com um toque sedutor – todas essas coisas que espero ver em um carro novo.
Quanto mais pensava a respeito, mais doente me parecia. Quem diabos eu sou para precisar de todo esse refinamento? O senhor do mundo? Não. Sou só mais um idiota que às vezes fica dias sem tomar banho. Gosto de carros potentes, rápidos e luxuosos como qualquer um mas, sinceramente, os dois veículos que mais me chamaram a atenção foram o Tata Magic Iris e o Mahindra Maxximo.


Ambos estão disponíveis em versões van e picape pequena – dois tipos de veículos que já defendi abertamente. Os dois também são, para os nossos padrões, extremamente baratos e absurdamente mancos. Muitos de nós sequer os chamariam de carros – na verdade, as próprias companhias que os produzem às vezes evitam chamá-los de carros, e se referem a eles como “four-wheelers” – em referência aos perigosos veículos de três rodas (three-wheelers) que serão substituídos por eles.
Mas eu não sou tão fresco com nomes. Estes são dois carros, em todos os sentidos, e ponto final.
Primeiro vamos dar uma olhada no Tata Magic Iris e seu nome bizarro. O Magic Iris, apresentado no ano passado, é uma pequena van baseada na plataforma de motor e tração traseira do Tata Nano. Se o Nano é, com alguma força de vontade, reminiscente do primeiro Fusca, esta seria a Kombi indiana.
Como já mencionei, ele foi projetado para substituir os perigosos e desconfortáveis tuk-tuk de três rodas. É por isso que as propagandas (dos dois veículos) fazem tanto alarde para coisas que para nós são naturais, como ‘carroceria’, ‘teto em metal’ e ‘quatro rodas’. Ah, e ‘freios, acelerador e embreagem operados por pedais’. Comparado com o tuk-tuk, essa coisinha é um Maybach. Comparado com qualquer outra coisa, nem tanto.
O aproveitamento do espaço é sensacional. O layout é muito parecido com o de uma Kombi, com o motorista sentado na frente do eixo dianteiro e o motor na traseira. Em uma medida para cortar custos e melhorar o conforto, as janelas laterais são feitas de plástico e tecido, como nos primeiros Citroën 2CV. O design no geral é moderno e sem frescuras.

O motor quatro-tempos monocilíndrico a diesel de 661 cm³ produz chocantes 11 cv e 3 mkgf de torque. Não é muito, mas é o suficiente para levar a van de 680 kg a quase 60 km/h – bem rápido para estradas rurais ou o trânsito das cidades. Sua suspensão é independente nas quatro rodas e o consumo – tomem essa – fica entre 30 e 35 km/l.
Esse carrinho me interessa porque é um estudo prático e realista a respeito do mínimo que um carro precisa para ser viável e utilizável. Talvez mais até do que o Nano, em certos pontos. Me lembra muito os primeiros 2CV – o conceito de ‘guarda chuva sobre rodas’. E, pensando bem, a situação da França no pós-guerra não era muito diferente do que vemos hoje na Índia em desenvolvimento, no que se refere ao que um veículo precisa para ser popular. Baixo preço, durabilidade, facilidade de reparo, economia e capacidade de resistir a estradas horríveis – essas características definem os dois carros.
A maioria pensa que algo assim jamais daria certo em um país desenvolvido. Comparando com a maioria dos carros, eles provavelmente estão certos. Não daria nem para viajar com um veículo desses. Mas vamos tentar encarar de outra forma: o Magic Iris custa o equivalente a R$ 8,5 mil, aproximadamente. Uma Honda Biz 0km custa, por aqui, R$ 6.890. Faz mais sentido agora, não é? Se você quer um meio de transporte básico, a pequena van da Tata é muito mais prática do que um scooter. E provavelmente mais segura.
O Mahindra Maxximo tem o mesmo conceito do Tata, mas um pouco maior e mais potente. Também é menos “indiano” e, com algumas modificações, poderia se tornar um projeto global.
Também é uma van, e também tem uma janela de plástico e tecido. Talvez um esquema desses ficasse bem em um SUV ou crossover “aventureiro” – imagine um Subaru Forester básico com as janelas traseiras em tecido. Acho que ficaria bem bacana.

O layout do Maxximo é ligeiramente diferente, também – motor central, como uma Toyota Previa, e o motorista vai sentado em cima do motor. E agora estou falando de um motor diesel de 2 cilindros e 909cc, entregando incríveis 25 cv. O motor é até avançado, com comando duplo no cabeçote, quatro válvulas por cilindro, injeção direta (!) e um “sistema de corte de injeção livre de pedais” que soa um start/stop primitivo. Nada de cair o queixo, mas estamos falando de um motorzinho diesel de 2 cilindros em um carro que custa menos de R$ 14 mil. Também há uma versão a gás natural, e um modelo elétrico deve estar nos planos.

O espaço na vanzinha é bem distribuído, com três fileiras de bancos; as duas de trás ficam de cara uma para a outra como em um Land Rover Defender 90 – uma maneira bacana de aproveitar o espaço.
Eu adoraria testar qualquer uma das vans, ou as duas. São projetos puros e honestos – nada bonito ou elegante ou desejável. Apenas soluções tão boas para problemas específicos da Índia que fica difícil não admirá-las.
Não costumamos falar muito dos carros indianos aqui mas, se me permitem um palpite, acredito que veremos carros indianos aqui no ocidente em um futuro não muito distante. Só espero que eles possam encontrar seu nicho e manter suas qualidades tão únicas em vez de se tornar só uma versão mais barata de carros que já existem. Estamos falando de engenharia inovadora de verdade. Estas fabricantes poderiam apenas pegar mais um hatch barato (como já fizeram antes) e se dar por satisfeitas. Mas, no fim das contas, as duas perceberam que esta solução não seria o bastante e que era preciso investir em novos projetos locais.
Ou talvez eu só queira muito uma van pequena, barata, lerda e esquisita.

Fonte: Jalopnik
Disponível no(a): http://www.jalopnik.com.br/
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