Sem fôlego, movendo-se devagar e cuidadosamente, a
lenda automotiva Carroll Shelby, usando seu tradicional chapéu Stetson
preto, ergue sua mão direita em direção aos holofotes acima e agradece
os aplausos da platéia. É incrível que ele esteja na apresentação do
Mustang Shelby GT500 2013, já que ele estava numa cama de hospital,
lutando contra seus prolongados problemas de saúde, há cerca de uma
hora. Mas claro, Shelby, mesmo aos 89 anos, é incrível.
Ele tem combatido a competição e as chances pelos
últimos 50 anos, então não é estranho para ele arrancar-se dos
equipamentos de suporte à vida para estar presente no lançamento de um
carro. É rotina para o home que arriscou seu nome, reputação e vida
pelos carros por toda sua vida adulta.
Relembrar não é algo que Shelby gosta de fazer. Ele
prefere focar suas atenções para o futuro, concentrando-se no seu
próximo projeto, ao invés de perder tempo com o passado. Mas quando ele
está prestes a celebrar seu meio-centenário produzindo carros letalmente
incríveis revelando sua mais recente e explosiva criação no Salão de
Nova Iorque de 2012, e os 50 anos da apresentação do primeiro Cobra no
stand da Ford no mesmo evento, temos certeza de que ele não se importará
com esta recapitulação.
Antes de começar a produzir carros em 1962, Shelby
passou os anos 1950 colecionando conquistas nas pistas de corrida do
mundo. Entre suas várias conquistas, ele ganhou as 24 Horas de Le Man em
um Aston Martin em 1959, cravou 16 recordes de velocidade americanos e
internacionais em um Austin Healey 100S especialmente preparado e
sobrealimentado, e competiu nas temporadas de 1958 e 1959 da Fórmula 1,
ao volante de uma Maserati 250F e de um Aston Martin DBR4-250.
Ele com certeza teria conseguido muito mais vitórias e
conquistas, mas seu problema cardíaco que tem-lhe perseguido desde os 7
anos de idade interrompeu sua carreira nas pistas. Então, sem uma
maneira de exercitar seu espírito competitivo ao volante, Shelby abriu
uma escola de pilotagem e começou a produzir carros. Só porque ele não
podia correr não significava que ele não poderia ajudar outros a
perseguirem seus sonhos.
Mas ao invés de criar seu carro do zero – algo que
Shelby fez apenas uma vez na vida e ainda arrepende-se disso – ele
conseguiu uma licença para importar o AC Ace, da britânica AC Motors. Um
motor Bristol 2.0 movia o Ace, mas Shelby precisava de mais velocidade
para competir contra o Chevy Corvette, então ele instalou um Ford V8
2.6. E então, o temido Shelby Cobra nasceu.
Com este motor instalado, que foi seguido pelo 289 e
pelo monstruoso V8 427, o Cobra tornou-se – e ainda é – um dos carros
esportivos mais reconhecíveis, excitantes e, em mãos inexperientes,
perigosos no planeta. Ele também é um dos motivos para termos que aturar
o limite de 112 km/h nas rodovias britânicas, após um Cobra Coupé ter
sido roubado durante testes e ter chegado a 315 km/h.
Após ter tido muito sucesso nas ruas e nas pistas, a
parceria Ford/Shelby continuou pelas próximas duas décadas, criando o
Daytona Coupé, o GT40 – o “matador” de Ferraris – além do GT350 e os
monstruosos Shelby Mustang GT500. Outros poderiam terem sido criados,
mas quando o chefe da Ford, Lee Iacocca, foi para a Chrysler, Shelby foi
com ele.
Uma gama confusa de modelos Dodge surgiu usando o
nome Shelby entre 1983 e 1989, ou como versões preparadas de modelos
existentes, como o Dodge Daytona Shelby 1989, ou como variantes com a
marca Shelby, como o Shelby GLHS, mas nenhum virou clássico instantâneo
como os Ford. Até o surgimento do grande Viper em 1991.
Atuando como consultor de performance na equipe que
projetou o Viper, Shelby trabalhou com outros notáveis como Bob Lutz,
Tom Gale e François Castaing para produzir o carro “All-American”.
Ironicamente, a única coisa que podia ofuscar o 50º aniversário de
Shelby no Salão de Nova Iorque era a apresentação do novo Viper SRT no
mesmo dia.
Com todo este sucesso trabalhando para outras
companhias, em 1999, Shelby decidiu criar um carro do zero pela primeira
e última vez. O Shelby Series 1 com motor Oldsmobile tinha a aparência
certa, o som certo e andava bem. Mas alguns problemas legais bem longos e
bem entediantes envolvendo compras de companhias, mudanças
administrativas na GM e enormes somas de dinheiro mataram esse projeto
quando apenas 240 modelos foram feitos. Essa quantidade não era
suficiente para cobrir todos os custos de desenvolvimento, então Shelby
acabou com um prejuízo de milhões de dólares na sua conta bancária, o
que convenceu-o a nunca mais projetar um carro sozinho.
Felizmente, logo em seguida, a Ford voltava à
produção de carros de alta performance e recontratou Shelby para trazer
sua mágica de volta à gama da marca. O primeiro produto dessa reunião
foi o carro-conceito Shelby Cobra em 2004, seguido pelo belo e
cintilante GR-1 um ano depois. O primeiro dos Shelby Mustang da era
moderna, o GT500, foi oferecido em 2006 e fez jus à filosofia de Shelby:
“muita potência pelo seu dinheiro”. Tendo um V8 5.4 sobrealimentado com
cabeçotes do motor do Ford GT e produzindo exatamente 500 cavalos, ele
foi oferecido por pouco mais de US$40 mil.
O carro era – e ainda é – feito pelo departamento SVT
da Ford. Mas as operações de Shelby no QG da Shelby American Inc. em
Las vegas não foram paralisadas. A companhia continua a produzir os
eternos Cobra 289 e 427, e também produz – ao invés de preparar – cerca
de 500 modelos Shelby Mustang por ano na sua dedicada fábrica.
Clientes podem mandar seus próprios Mustang de fábrica ou pedir para a
concessionária enviarem seus carros novos diretamente, então a Shelby
American instala o pacote pedido – desde o pacote “básico” GTS para o
modelo V6 até o super-potente pacote Super Snake de 800 cavalos para o
Shelby GT500. Estes pacotes incluem melhorias na carroceria, no chassi
e, claro, no motor. Mas há montes de outros opcionais que os clientes
podem escolher para tornar seus Shelby únicos.
Andamos em um Super Snake usado para test-drives e
ficamos impressionados com a montagem, o acabamento e com a
dirigibilidade e a performance em geral. Um Mustang da Shelby American
não é apenas um carro normal com algumas faixas, um baita supercharger e
um jogo novo de rodas.
Os caras ajustam todos os aspectos do carro, do motor
ao chassi, dos freios à carroceria. E ao invés de apenas ser um Shelby
GT500 mais “durão”, o modelo parece mais “preso” ao chão, mais ávido por
fazer curvas. E monumentalmente mais potente. Gostaríamos de testar um
nas ruas e na pista por alguns dias antes de darmos um veredito final,
mas, baseando-se no nosso teste curto, ele é uma beleza.
O negócio como um todo também está uma beleza. Apesar de alguns momentos de aperto no passado, o presidente da companhia, John Luft, avalia que a Shelby American está indo muito bem. “A empresa Shelby divide-se em três partes”, diz ele. “Tem a produção de carros, a permissão do uso do nome Shelby, e agora tem a loja, a Shelby American Motorsports. Juntas, elas formam um negócio ótimo”.
A nova loja é importante pois ela permite que a
Shelby American ofereça aos donos de muscle-cars de outras marcas, não
apenas de modelos Mustang, a chance de ter um pouco da mágica da Shelby
em seus carros. Com um dinamômetro ajustado para aguentar até 2 mil
cavalos e 13 elevadores, parece que há um número infinito de clientes,
pois a loja estava cheia com carros de várias marcas, todos tendo seus
DNA reajustados pelos especialistas da Shelby.
Então, ao invés de permanecer estática, a Shelby
American está evoluindo, refinando seus produtos atuais e criando outros
novos ainda mais potentes – e “powertrains” diferentes. Shelby diz que
ele já produziu alguns Cobras elétricos, mas ele não acha que sua
companhia focará neles tão cedo. “Já temos motores a combustão mais
limpos hoje, então acho que ainda existirá petróleo por mais 20 ou 30
anos”, ele diz. “Na minha idade, estou mais interessado nisso. E devo
continuar assim até minha morte”.
Da mesma forma, Shelby não planeja licenciar seu nome
para outra fabricante além da Ford enquanto estiver vivo. “Espero
morrer com a Ford”, ele diz. “Não pretendo mudar de idéia”. E, mesmo a
morte de Shelby ser algo impensável, parece que não está muito longe.
Apesar de ser uma das pessoas que mais viveram após um transplante de
coração no mundo, a saúde de Shelby piorou muito no ano passado. Nossa
conversa com ele provavelmente será uma das últimas a serem publicadas.
Se ele irá falecer logo ou não – e um certeza é que
este homem sempre surpreende – com a Shelby American Inc. a todo vapor,
seu legado certamente será duradouro. Nem todos os carros que ganharam o
nome Shelby nos últimos 50 anos foram grandes, mas todos eles foram
vividamente excitantes. Que venham os próximos 50 anos. Mesmo após a
morte do homem, o espírito e a paixão durarão para sempre.
Texto: Pat DevereuxFonte: TopGear.com
Tradução: John Flaherty
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