3 de jan. de 2012

Como a Aston Martin fabrica o One-77


Henry Ford criou um monstro.
O gênio da produção em massa deu início à indústria automotiva moderna ao aperfeiçoar a arte de construir carros de modo rápido e barato. Em 2010 as linhas de produção foram responsáveis pela construção de aproximadamente de 78 milhões de carros que saíram das fábricas naquele ano. Isso significa que mais de 213.000 novos carros são produzidos por dia – quase faz com que você se sinta especial com um Mitsubishi.

Embora o processo de construção da Aston Martin envolva uma “linha”, ele não expele carros infinitamente. A fábrica britânica levou 70 anos para vender seus primeiros 10.000 veículos. Ainda hoje suas elegantes criações continuam sendo feitas a mão por um pequeno exército de operários na sede da empresa em Gaydon, encravada na borda da idílica região de Cotswolds, no interior da Inglaterra.
Mas quando a Aston começou a fabricar seu supercarro One-77, ela saiu de sua linha de produção principal e construiu uma pequena estrutura onde virou do avesso o conceito de linha de montagem. Em vez de mover o carro ao longo de uma linha de construção, há sete estações de trabalho onde artesãos e peças giram em torno de cada veículo. Esta disposição remete mais à época de ouro das encarroçadoras que ao admirável mundo novo da produção em massa hiper-eficiente.
Na foto de abertura: um Aston One-77 branco aguarda sua inspeção final.
O One-77 é uma tentativa ambiciosa da Aston Martin de destilar sua mais pura essência em um único veículo ao mesmo tempo em que reestabelece um padrão estratosfericamente alto para sua marca de quase um século.
“Nós acumulamos todo esse conhecimento e compreensão e realmente quisemos mostrar nossa capacidade para o mundo”, diz o projetista Marek Reichman.
O engenheiro-chefe Chris Porritt acrescenta que o projeto foi intencionalmente executado antes que o furioso lobby ambientalista pudesse dificultar a produção de um veículo tão politicamente incorreto.
“Procuramos dar nosso melhor ao entregar o Aston Martin mais exclusivo, empolgante e de melhor desempenho que já construímos”, diz Porritt.
Ainda assim, qualquer executivo da Aston Martin – incluindo o CEO Dr. Ulrich Bez – dificilmente concordará que o One-77 seja o mais rápido, mais veloz ou o supercarro de melhor dinâmica, apesar do ronco assombroso e dos 750 cv de seu V12, ou da velocidade máxima superior a 350 km/h.
Por outro lado, ele talvez seja o mais belo de todos.

Grampos seguram componentes juntos enquanto a cola seca.

Carroceria e chassi pintados aguardam a montagem.
O One-77 custa 1.120.000 libras esterlinas, mais que o triplo do próximo modelo mais caro da Aston Martin – o V12 Zagato. Para ter uma ideia de onde este topo-de-linha se situa na pirâmide da Aston, além de ter sua produção reduzida a menos que a metade do Zagato, ele também é mais exótico no conceito e na execução.
Ele também tem o motor de aspiração natural mais potente do mundo entre os carros produzidos em série, um interior exclusivo que parece vindo diretamente de um projeto conceitual, e uma série interminável de elementos personalizáveis. Uma paleta de acabamentos e características como forro do teto estampado a laser, e a experiência é coroada por um engenheiro que acompanha o cliente à sua pista ou estrada favorita para calibrar a suspensão do carro de acordo com o gosto pessoal do proprietário.
O carro é tão exclusivo e tão luxuoso que a única forma de aumentar seu preço de venda é encomendar superfícies internas folheadas por ouro ou rutênio – um metal raro da família da platina que está em alta no mundo dos relógios de luxo.

Os operários da Aston Martin são capazes de trabalhar em qualquer posição para acessar áreas difíceis durante o processo de montagem.

Os assentos de cada One-77 são fabricados de acordo com as especificações do cliente. De padrões de costura a texturas, tudo pode ser personalizado pelo comprador.
O nome One-77 sugera que cada veículo desta série de 77 unidades é único. Por que 77? Uma brincadeira com números aqui, com uma referência ao agente 007 e o fato de ter sido concebido em 2007, além de ser o dia do aniversário de Ulrich Bez. Havia também uma certa “sensação” sobre o número: 50 é pouco, 100 é muito, e 75 previsível demais.
“Nunca fazemos nada muito óbvio na Aston Martin”, diz Reichman.
O que é óbvio entre as paredes da área de construção do One-77? Primeiro, este espaço branco impecavelmente organizado tem níveis cirúrgicos de limpeza e atenção a detalhes. Não há desordem, nem fluido de transmissão espalhado, nem robôs grosseiros. O pequeno grupo de artesãos representa o primeiro time de operários da empresa, bem como os líderes do projeto e engenheiros por trás deste projeto incrivelmente caro e exclusivo.

Aston Martin One-77 em vários estágios da montagem. Somando o tempo necessário para construir o motor e o chassi, cada One-77 leva quatro semanas para ficar pronto.

Os veículos são erguidos ou baixados para que os operários posicionem-se ergonomicamente em um ambiente quase esterilizado.
O processo de construção do One-77 começa assim que uma série de componentes-chave se encontram na área de montagem, entre eles estão o monocoque de fibra de carbono fabricado pela canadense Multimatic e o motor V12 de 7,2 litros construído pela Cosworth.
O monocoque – que custa quase a metade do valor do carro – requer um processo de manufatura absurdamente delicado que exige seis operários e três semanas para ser concluído – isso se cada passo for executado impecavelmente sem falhas. Se alguém errar o corte, laminação, curagem ou autoclavagem a qualquer ponto deste meticuloso processo, toda a estrutura precisa ser desmanchada e o processo começa novamente.

Operários preparam o V12 de 750 cv para a instalação em um One-77.

Estrutura frontal de alumínio que acomoda o motor é instalada na carroceria do carro.
Uma vez que o chassi do carro é montado e passa pela inspeção final no Canadá, ele é enviado a Conventry. Lá a carroceria de alumínio modelada a mão em formas musculares e orgânicas que incluem arcos de roda ameaçadoramente largos, tomadas de ar dianteiras artisticamente cortadas e espelhos laterais que parecem fluir das portas – tudo desenhado por Reichman. A carroceria é soldada e parafusada à estrutura principal e o processo de duas semanas é finalizado com uma camada de pintura eletrostática. O chassi e a carroceria então são enviados à Aston Martin, onde recebe uma pintura de nove camadas que pode ser feita em qualquer matiz.
Mas não importa quão profunda ou brilhante seja sua pintura, ou quão ousada sejam suas linhas. Um carro exótico não é nada sem suas bases mecânicas. É onde entram as sete estações.

Uma equipe instala o forro do teto no One-77.

Um operário encaixa o console central de madeira em forma de cascata no painel.
A primeira estação vê a instalacão de componentes nada glamourosos, porém essenciais, como os chicotes elétricos e as linhas de combustível. Uma vez que as mangueiras estão no lugar, é hora de passar à estação número 2, onde partes como o bocal do tanque de combustível e o isolamento térmico (alguns dos quais folheados por ouro) são instalados.
O chassi se torna mais interessante visualmente no estágio três, onde o painel de instrumentos é parafusado em sua base, junto com uma miríade de interruptores, botões e pedaços de tecido que constituem o interior.
O One-77 recebe seu motor monstruoso na quinta etapa, um cauteloso casamento em que a poderosa usina de força é unida ao tubo de torque por doze parafusos cruciais. O resto do habitáculo é montado no estágio seis, enquanto os componentes da suspensão inboard totalmente ajustável são instalados, bem como as estruturas dos para-lamas dianteiros e várias outras peças como grades, dobradiças e travas para o capô.

Os componentes da suspensão inboard do One-77 são completamente ajustáveis; embora o conjunto atenda a 90% dos estilos de condução, um empregado da Aston Martin acompanhará cada um dos compradores para ajustá-la a suas especificações.

Parte do monocoque de fibra de carbono é visível através da abertura do farol.
Na parte final da montagem tudo se acerta quando quatro rodas de 20 polegadas – calçadas em pneus Pirelli P Zero Corsa 235 na dianteira e 335 na traseira – são instaladas a milímetros dos poderosos discos de cerâmica e das pinças traseiras de quatro pistões e dianteiras de seis.
Finalmente o One-77 pode seguir por conta própria, e é dirigido a uma área onde a suspensão e as rodas são alinhadas.
Uma simulação de teste de rua garante que os sistemas como ABS, controle de tração e componentes do conjunto motriz estão funcionando normalmente. Outras simulações internas são feitas para assegurar que não haverá infiltrações na cabine.

A Brembo fornece os enormes discos de cerâmica do One-77, que medem 398 mm na dianteira e 360 mm na traseira.

Um One-77 completo passa por outros ainda em construção.
Quando os compradores fazem sua peregrinação à sede da Aston Martin para receber seu One-77, cada um deles é recebido por uma evento de revelação que não é nada menos que teatral. Sentados em uma sala de cor preta acetinada, uma sequência musical composta exclusivamente para o momento preenche o ambiente através de um sistema Bang & Olufsen. Cinco mil lâmpadas orgânicas de LED penduradas como candelabros começam a pulsar sobre o veículo como um ritmo cardíaco, criando movimentos ondulatórios pelo teto da sala, evoluindo para uma luz trêmula cada vez mais intensa até que a luminosidade é totalmente despejada sobre o metal da carroceria. Esta preliminar culmina com um crescendo musical, um mar de fótons e um supercarro irresistivelmente sedutor.

Um One-77 completo aguarda a inspeção final.

É isso o que o comprador vê quando chega para receber seu One-77 na fábrica. Receber as chaves não seria suficiente. Os compradores são submetidos a uma experiência sensorial completa.
Até hoje 67 One-77 foram entregues aos compradores, que estão por todo o globo – da Ásia ao Oriente Médio. O restante da produção será finalizado em 2012.
Se você nunca vestiu um terno da Saville Row ou calçou um par perfeito de sapatos Oxford feitos à mão, a ideia de um comprar roupas prontas é totalmente comum e aceitável, talvez até desejável. Mas para uma minúscula fatia da população que já tem uma garagem recheada de Ferraris, McLarens, Lamborghinis e talvez Porsches, nada combinaria melhor com uma coleção de supercarros que o raro e inegavelmente belo One-77.

Uma das últimas etapas do processo de montagem envolve a instalação do emblema da Aston Martin no capô do One-77.
Este artigo foi escrito por Basem Wasef e foi publicado originalmente no Wired:Autopia em 15 de dezembro de 2011, sendo republicado com permissão do autor.
Fonte: jalopnik
Disponível no(a):http://www.jalopnik.com.br

Nenhum comentário: